A paisagem da ausência e o tempo dos que partiram em “Ausentes”, de Paulo Tabatinga, por Francisco Gomes
A ausência, em Ausentes, não é apresentada como simples falta, mas como uma condição que altera a percepção do tempo, do espaço e da própria paisagem. Integrante de A cidade sitiada, do poeta piauiense Paulo Tabatinga, de Teresina, o poema constrói, com extrema economia verbal, uma experiência de perda e deslocamento em que os amigos já não compartilham o mesmo presente do sujeito lírico. O título, plural e direto, anuncia uma coletividade marcada pela distância, enquanto a brevidade da composição transforma o silêncio em elemento constitutivo da linguagem.
O primeiro verso, “Amigos ausentes”, apresenta de imediato a contradição sobre a qual todo o poema se sustenta. “Amigos” designa proximidade afetiva; “ausentes”, sua impossibilidade concreta. Não se trata, portanto, de um desaparecimento absoluto, pois os amigos continuam nomeados e presentes na linguagem. A repetição do sintagma, no quarto verso, funciona como refrão e produz um movimento circular: o poema parece retornar ao mesmo ponto porque a ausência não se resolve. Entre uma ocorrência e outra, porém, algo se transforma. Os amigos estão “vivendo outro tempo” e, depois, “fitando horizontes”, como se pertencessem a uma dimensão temporal e espacial já inacessível ao eu lírico.
A expressão “outro tempo” amplia a experiência para além da distância física. Os ausentes não vivem simplesmente em outro lugar, mas em outra temporalidade. A memória, desse modo, não consegue restabelecer a simultaneidade perdida. Essa condição encontra continuidade na imagem dos “falsos arrebóis”. O arrebol, associado ao crepúsculo e à luminosidade do horizonte, poderia sugerir beleza, esperança ou passagem para um novo ciclo. O adjetivo “falsos”, entretanto, desmonta essa expectativa: a luz é apenas aparência, promessa que não se cumpre. O horizonte passa a ser uma espécie de paisagem enganosa da memória.
Na segunda metade do poema, o paralelismo se intensifica:
“amigos ausentes
fitando horizontes
sem vida sem sóis.”
O verbo “fitar” introduz o campo do olhar, mas não produz aproximação. Os amigos contemplam horizontes que permanecem indeterminados, enquanto o leitor é conduzido a uma paisagem progressivamente desprovida de vitalidade. O horizonte, tradicionalmente associado à abertura e ao futuro, encontra-se submetido à ausência. Aquilo que deveria anunciar possibilidades termina conduzindo ao vazio.
O desfecho, “sem vida sem sóis”, radicaliza essa sensação de desolação. A repetição de “sem” produz uma dupla subtração: falta a vida e faltam os sóis. O plural de “sóis” é particularmente expressivo, porque amplia simbolicamente a perda. Não se trata apenas da ausência de uma única fonte de luz, mas da supressão de múltiplos centros possíveis de orientação, calor e vitalidade. A paisagem exterior parece absorver a experiência interior do sujeito, como se a perda dos amigos tivesse alterado a própria configuração do mundo.
A economia verbal é decisiva para esse efeito. Paulo Tabatinga não explica a ausência, não descreve sua causa nem recorre ao sentimentalismo. O poema trabalha por condensação, deixando que substantivos, adjetivos e verbos sustentem quase toda a carga semântica. A estrutura paralelística e a repetição de “amigos ausentes” conferem ao texto uma musicalidade discreta, próxima da elegia, enquanto a ausência de pontuação no verso final prolonga a sensação de esvaziamento. O sentido parece continuar para além da última palavra, como se a falta não pudesse ser encerrada pelo poema.
A relação com o título do livro, A cidade sitiada, acrescenta outra camada à leitura. A cidade, espaço de encontro, circulação e convivência, aparece metaforicamente cercada por aquilo que impede a plena comunhão entre os sujeitos. Em Ausentes, esse cerco parece atingir o próprio tempo das relações: os amigos continuam existindo, mas já não habitam o mesmo horizonte. A cidade sitiada pode ser, assim, também a consciência sitiada pela memória e pela impossibilidade de recuperar o que passou.
Talvez seja nessa convergência entre concisão e desolação que o poema encontre sua maior força. Os “falsos arrebóis” e os “horizontes/sem vida sem sóis” transformam a paisagem em extensão da ausência, enquanto a repetição de “amigos ausentes” preserva, paradoxalmente, aquilo que a experiência tenta declarar perdido. Paulo Tabatinga faz da falta uma forma de presença: os amigos não estão no mesmo tempo, mas continuam inscritos no poema. E é justamente nessa tensão entre aquilo que desapareceu e aquilo que ainda pode ser nomeado que Ausentes encontra sua força elegíaca.