setembro 10, 2026 · Paulo Tabatinga

A paisagem da ausência e o tempo dos que partiram em “Ausentes”, de Paulo Tabatinga, por Francisco Gomes

("A cidade sitiada", Edição do autor, 2015)
AUSENTES Amigos ausentes vivendo outro tempo de falsos arrebóis amigos ausentes fitando horizontes sem vida sem sóis.

A ausência, em Ausentes, não é apresentada como simples falta, mas como uma condição que altera a percepção do tempo, do espaço e da própria paisagem. Integrante de A cidade sitiada, do poeta piauiense Paulo Tabatinga, de Teresina, o poema constrói, com extrema economia verbal, uma experiência de perda e deslocamento em que os amigos já não compartilham o mesmo presente do sujeito lírico. O título, plural e direto, anuncia uma coletividade marcada pela distância, enquanto a brevidade da composição transforma o silêncio em elemento constitutivo da linguagem.
 
O primeiro verso, “Amigos ausentes”, apresenta de imediato a contradição sobre a qual todo o poema se sustenta. “Amigos” designa proximidade afetiva; “ausentes”, sua impossibilidade concreta. Não se trata, portanto, de um desaparecimento absoluto, pois os amigos continuam nomeados e presentes na linguagem. A repetição do sintagma, no quarto verso, funciona como refrão e produz um movimento circular: o poema parece retornar ao mesmo ponto porque a ausência não se resolve. Entre uma ocorrência e outra, porém, algo se transforma. Os amigos estão “vivendo outro tempo” e, depois, “fitando horizontes”, como se pertencessem a uma dimensão temporal e espacial já inacessível ao eu lírico.
 
A expressão “outro tempo” amplia a experiência para além da distância física. Os ausentes não vivem simplesmente em outro lugar, mas em outra temporalidade. A memória, desse modo, não consegue restabelecer a simultaneidade perdida. Essa condição encontra continuidade na imagem dos “falsos arrebóis”. O arrebol, associado ao crepúsculo e à luminosidade do horizonte, poderia sugerir beleza, esperança ou passagem para um novo ciclo. O adjetivo “falsos”, entretanto, desmonta essa expectativa: a luz é apenas aparência, promessa que não se cumpre. O horizonte passa a ser uma espécie de paisagem enganosa da memória.
 
Na segunda metade do poema, o paralelismo se intensifica:
 
“amigos ausentes
fitando horizontes
sem vida sem sóis.”
 
O verbo “fitar” introduz o campo do olhar, mas não produz aproximação. Os amigos contemplam horizontes que permanecem indeterminados, enquanto o leitor é conduzido a uma paisagem progressivamente desprovida de vitalidade. O horizonte, tradicionalmente associado à abertura e ao futuro, encontra-se submetido à ausência. Aquilo que deveria anunciar possibilidades termina conduzindo ao vazio.
 
O desfecho, “sem vida sem sóis”, radicaliza essa sensação de desolação. A repetição de “sem” produz uma dupla subtração: falta a vida e faltam os sóis. O plural de “sóis” é particularmente expressivo, porque amplia simbolicamente a perda. Não se trata apenas da ausência de uma única fonte de luz, mas da supressão de múltiplos centros possíveis de orientação, calor e vitalidade. A paisagem exterior parece absorver a experiência interior do sujeito, como se a perda dos amigos tivesse alterado a própria configuração do mundo.
 
A economia verbal é decisiva para esse efeito. Paulo Tabatinga não explica a ausência, não descreve sua causa nem recorre ao sentimentalismo. O poema trabalha por condensação, deixando que substantivos, adjetivos e verbos sustentem quase toda a carga semântica. A estrutura paralelística e a repetição de “amigos ausentes” conferem ao texto uma musicalidade discreta, próxima da elegia, enquanto a ausência de pontuação no verso final prolonga a sensação de esvaziamento. O sentido parece continuar para além da última palavra, como se a falta não pudesse ser encerrada pelo poema.
 
A relação com o título do livro, A cidade sitiada, acrescenta outra camada à leitura. A cidade, espaço de encontro, circulação e convivência, aparece metaforicamente cercada por aquilo que impede a plena comunhão entre os sujeitos. Em Ausentes, esse cerco parece atingir o próprio tempo das relações: os amigos continuam existindo, mas já não habitam o mesmo horizonte. A cidade sitiada pode ser, assim, também a consciência sitiada pela memória e pela impossibilidade de recuperar o que passou.
 
Talvez seja nessa convergência entre concisão e desolação que o poema encontre sua maior força. Os “falsos arrebóis” e os “horizontes/sem vida sem sóis” transformam a paisagem em extensão da ausência, enquanto a repetição de “amigos ausentes” preserva, paradoxalmente, aquilo que a experiência tenta declarar perdido. Paulo Tabatinga faz da falta uma forma de presença: os amigos não estão no mesmo tempo, mas continuam inscritos no poema. E é justamente nessa tensão entre aquilo que desapareceu e aquilo que ainda pode ser nomeado que Ausentes encontra sua força elegíaca.

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