A memória da origem e o silêncio da poesia em “Legenda”, de Mário Faustino, por Francisco Gomes
Em Legenda, poema da seção “Disjecta membra”, de O homem e sua hora, Mário Faustino constrói uma reflexão sobre a perda das condições simbólicas da poesia no mundo moderno. O texto organiza-se a partir de um contraste entre um tempo originário, quase mítico, e um presente marcado pela violência, pelo excesso e pela fragmentação. Mais do que uma evocação nostálgica, trata-se de investigar o lugar da palavra poética quando a experiência do mundo já não parece favorecer o silêncio, a contemplação e a escuta.
A recorrência da expressão “No princípio” remete imediatamente ao discurso cosmogônico do Gênesis. No entanto, Faustino subverte essa referência bíblica ao deslocar o foco da criação. Em vez da célebre afirmação da luz inaugural, o poema apresenta um universo em que “Houve treva bastante para o espírito/Mover-se livremente” e “Houve silêncio até para escutar-se/O germinar atroz de uma desgraça”. A treva deixa de representar ignorância ou ausência para tornar-se condição de liberdade interior, enquanto o silêncio revela sua potência como espaço de percepção. A origem não é luminosa, mas meditativa; não nasce da evidência, e sim daquilo que ainda permanece oculto.
Essa inversão de valores é decisiva para compreender o poema. Em Mário Faustino, a luz nem sempre corresponde ao conhecimento, assim como a escuridão não equivale necessariamente ao erro. O poeta propõe outra lógica simbólica: é precisamente na penumbra que o espírito encontra condições para mover-se, refletir e perceber aquilo que a claridade excessiva tende a apagar. A expressão “Oculto em pleno dia” sintetiza esse paradoxo ao sugerir que nem toda visibilidade produz compreensão.
Na sequência, o poema amplia essa atmosfera primordial por meio de imagens de extraordinária delicadeza. A “vegetal quietude”, descrita como tão intensa que se podia compreender “a queda de uma lágrima/Das frondes dos heróis de cada dia”, estabelece uma temporalidade desacelerada, quase sagrada. A natureza, o silêncio e a emoção humana integram uma mesma ordem simbólica, na qual até os acontecimentos mais discretos adquirem espessura existencial. Trata-se de um mundo em que ainda era possível ouvir aquilo que normalmente permanece inaudível.
A segunda parte do poema rompe bruscamente esse equilíbrio. O passado é evocado por meio de uma sucessão de comparativos:
“Havia então mais sombra em nossa via.
Menos fragor na farsa da agonia,
Mais êxtase no mito da alegria.”
A construção paralelística evidencia que não se trata apenas de uma mudança histórica, mas de uma transformação da própria experiência humana. A sombra, antes associada à interioridade, cede lugar ao ruído; o mito, capaz de conferir sentido à existência, dissolve-se diante da teatralização da violência.
É nesse contexto que surge uma das imagens mais expressivas do poema:
“Agora o bandoleiro brada e atira
Jorros de luz na fuga do meu dia.”
O bandoleiro não é apenas uma figura concreta; converte-se em símbolo de um tempo dominado pela agressividade e pelo espetáculo. Os “jorros de luz” intensificam a inversão simbólica construída desde o início do poema. Essa luz já não ilumina nem revela. Ao contrário, expõe, violenta e fragmenta. Seu excesso impede a contemplação e dissolve as condições necessárias para o exercício da poesia.
O desfecho concentra a dimensão ética do poema. Ao afirmar “E mudo sou para cantar-te, amigo,/O reino, a lenda, a glória desse dia”, o eu lírico formula um dos paradoxos mais comoventes da obra de Mário Faustino. O poeta continua desejando cantar, mas reconhece que o presente histórico tornou essa tarefa profundamente problemática. Seu silêncio não decorre da ausência de inspiração, mas da consciência de que o mundo perdeu parte das condições simbólicas que sustentavam o canto.
Essa leitura torna-se ainda mais significativa quando se considera que Legenda integra “Disjecta membra”, expressão latina que significa, literalmente, “membros dispersos”. O título da seção indica uma poética fundada na fragmentação, na consciência da ruína e na impossibilidade de restaurar plenamente uma unidade perdida. Ainda assim, o poema não abandona o desejo de reencontrar uma linguagem capaz de preservar a memória do mito e da origem.
Mais do que lamentar um passado idealizado, Mário Faustino transforma essa perda em matéria poética. Entre treva e luz, silêncio e estrondo, mito e história, Legenda afirma uma das tensões fundamentais de sua obra: a poesia talvez já não possa restituir o mundo originário, mas ainda pode conservar a lembrança de que ele existiu. É justamente nessa fidelidade à memória do invisível que reside a força duradoura do poema.
Estes desencontros históricos/existenciais possíveis no material poético se apropriando do místico e do mítico para transcendência não anulada pela concretude da vida. Todo este olhar se ramificando a partir desta análise de um crítico literário e um estudioso de Mário Faustino. Eu, um leitor comum, recorro sempre a bons ensaios para ter uma percepção menos superficial, míope da poesia.
Que mais e mais textos analíticos alimentem este espaço para eu, e tantos como eu, entender um pouco, assumindo meus desacertos, do que apenas senti.
Fico lisonjeado pelo comentário, meu poetAmigo. Você, sempre presente e cordial. Grande abraço.