agosto 10, 2026 · Mário Faustino

A memória da origem e o silêncio da poesia em “Legenda”, de Mário Faustino, por Francisco Gomes

("O homem e sua hora e outros poemas", Companhia das Letras, 2002)

 

LEGENDA No princípio Houve treva bastante para o espírito Mover-se livremente à flor do sol Oculto em pleno dia. No princípio Houve silêncio até para escutar-se O germinar atroz de uma desgraça Maquinada no horror do meio-dia. E havia, no princípio, Tão vegetal quietude, tão severa Que se entendia a queda de uma lágrima Das frondes dos heróis de cada dia. Havia então mais sombra em nossa via. Menos fragor na farsa da agonia, Mais êxtase no mito da alegria. Agora o bandoleiro brada e atira Jorros de luz na fuga do meu dia — E mudo sou para cantar-te, amigo, O reino, a lenda, a glória desse dia.

Em Legenda, poema da seção “Disjecta membra”, de O homem e sua hora, Mário Faustino constrói uma reflexão sobre a perda das condições simbólicas da poesia no mundo moderno. O texto organiza-se a partir de um contraste entre um tempo originário, quase mítico, e um presente marcado pela violência, pelo excesso e pela fragmentação. Mais do que uma evocação nostálgica, trata-se de investigar o lugar da palavra poética quando a experiência do mundo já não parece favorecer o silêncio, a contemplação e a escuta.
 
A recorrência da expressão “No princípio” remete imediatamente ao discurso cosmogônico do Gênesis. No entanto, Faustino subverte essa referência bíblica ao deslocar o foco da criação. Em vez da célebre afirmação da luz inaugural, o poema apresenta um universo em que “Houve treva bastante para o espírito/Mover-se livremente” e “Houve silêncio até para escutar-se/O germinar atroz de uma desgraça”. A treva deixa de representar ignorância ou ausência para tornar-se condição de liberdade interior, enquanto o silêncio revela sua potência como espaço de percepção. A origem não é luminosa, mas meditativa; não nasce da evidência, e sim daquilo que ainda permanece oculto.
 
Essa inversão de valores é decisiva para compreender o poema. Em Mário Faustino, a luz nem sempre corresponde ao conhecimento, assim como a escuridão não equivale necessariamente ao erro. O poeta propõe outra lógica simbólica: é precisamente na penumbra que o espírito encontra condições para mover-se, refletir e perceber aquilo que a claridade excessiva tende a apagar. A expressão “Oculto em pleno dia” sintetiza esse paradoxo ao sugerir que nem toda visibilidade produz compreensão.
 
Na sequência, o poema amplia essa atmosfera primordial por meio de imagens de extraordinária delicadeza. A “vegetal quietude”, descrita como tão intensa que se podia compreender “a queda de uma lágrima/Das frondes dos heróis de cada dia”, estabelece uma temporalidade desacelerada, quase sagrada. A natureza, o silêncio e a emoção humana integram uma mesma ordem simbólica, na qual até os acontecimentos mais discretos adquirem espessura existencial. Trata-se de um mundo em que ainda era possível ouvir aquilo que normalmente permanece inaudível.
 
A segunda parte do poema rompe bruscamente esse equilíbrio. O passado é evocado por meio de uma sucessão de comparativos:
 
“Havia então mais sombra em nossa via.
Menos fragor na farsa da agonia,
Mais êxtase no mito da alegria.”
 
A construção paralelística evidencia que não se trata apenas de uma mudança histórica, mas de uma transformação da própria experiência humana. A sombra, antes associada à interioridade, cede lugar ao ruído; o mito, capaz de conferir sentido à existência, dissolve-se diante da teatralização da violência.
 
É nesse contexto que surge uma das imagens mais expressivas do poema:
 
“Agora o bandoleiro brada e atira
Jorros de luz na fuga do meu dia.”
 
O bandoleiro não é apenas uma figura concreta; converte-se em símbolo de um tempo dominado pela agressividade e pelo espetáculo. Os “jorros de luz” intensificam a inversão simbólica construída desde o início do poema. Essa luz já não ilumina nem revela. Ao contrário, expõe, violenta e fragmenta. Seu excesso impede a contemplação e dissolve as condições necessárias para o exercício da poesia.
 
O desfecho concentra a dimensão ética do poema. Ao afirmar “E mudo sou para cantar-te, amigo,/O reino, a lenda, a glória desse dia”, o eu lírico formula um dos paradoxos mais comoventes da obra de Mário Faustino. O poeta continua desejando cantar, mas reconhece que o presente histórico tornou essa tarefa profundamente problemática. Seu silêncio não decorre da ausência de inspiração, mas da consciência de que o mundo perdeu parte das condições simbólicas que sustentavam o canto.
 
Essa leitura torna-se ainda mais significativa quando se considera que Legenda integra “Disjecta membra”, expressão latina que significa, literalmente, “membros dispersos”. O título da seção indica uma poética fundada na fragmentação, na consciência da ruína e na impossibilidade de restaurar plenamente uma unidade perdida. Ainda assim, o poema não abandona o desejo de reencontrar uma linguagem capaz de preservar a memória do mito e da origem.
 
Mais do que lamentar um passado idealizado, Mário Faustino transforma essa perda em matéria poética. Entre treva e luz, silêncio e estrondo, mito e história, Legenda afirma uma das tensões fundamentais de sua obra: a poesia talvez já não possa restituir o mundo originário, mas ainda pode conservar a lembrança de que ele existiu. É justamente nessa fidelidade à memória do invisível que reside a força duradoura do poema.

Respostas de 2

  1. Estes desencontros históricos/existenciais possíveis no material poético se apropriando do místico e do mítico para transcendência não anulada pela concretude da vida. Todo este olhar se ramificando a partir desta análise de um crítico literário e um estudioso de Mário Faustino. Eu, um leitor comum, recorro sempre a bons ensaios para ter uma percepção menos superficial, míope da poesia.
    Que mais e mais textos analíticos alimentem este espaço para eu, e tantos como eu, entender um pouco, assumindo meus desacertos, do que apenas senti.

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