agosto 9, 2026 · Giancarla Francovig Peralta Ceravolo

A memória como matéria do outro em “Em mim, todos os outros”, de Giancarla Francovig Peralta Ceravolo, por Francisco Gomes

("Enamoramento classicista ou O Fausto hodierno: sonetos e poemas", Caravana, 2025)
EM MIM, TODOS OS OUTROS Sou um poço de memórias e recordações. Quando menos espero, lá estão elas. Antes, tão bem guardadinhas, Hoje, atravessando-me como um prego atravessa a mão e a cruz, E passa ao outro lado. Tudo me atravessa. Atravessa e compõe. Compõe e cinde. Cinde e provoca dor. O rio eterno das mudanças ora causa mais dor, ora mais prazer. Sou o todo composto pelas partes, Tão diversas e quebradiças, Tão bem articuladas no uno do meu ser! Sou o outro dos outros. Pelos outros, atravessada e composta — E tudo ainda tine dentro de mim! A dor de existir é a dor do corte do cordão umbilical. Como podem relações tão vivas já não existirem mais neste plano? Não se diz adeus àquilo que ainda reverbera em si.

A identidade, neste poema, não aparece como uma superfície pronta, mas como uma matéria em constante transformação. Em Em mim, todos os outros, do livro Enamoramento classicista ou o Fausto hodierno: sonetos e poemas, Giancarla Francovig Peralta Ceravolo constrói um sujeito lírico cuja existência se constitui a partir daquilo que o atravessa: memórias, relações, perdas, afetos e experiências.
 
O próprio título já desloca a noção tradicional de individualidade ao colocar o outro dentro do eu. Não se trata apenas de lembrar aqueles que passaram, mas de reconhecer que cada presença recebida modifica aquilo que somos.
 
A primeira imagem do poema é reveladora:

“Sou um poço de memórias e recordações.”
 
O poço sugere profundidade, acúmulo e algo que permanece oculto até o momento de emergir. As lembranças, entretanto, não permanecem passivamente guardadas. Quando menos se espera, retornam e atravessam o sujeito. A passagem entre o que estava “tão bem guardadinho” e aquilo que passa a atravessar o corpo estabelece uma oposição fundamental entre memória como armazenamento e memória como força ativa. Recordar, aqui, não significa simplesmente recuperar o passado, mas sofrer novamente a ação daquilo que o passado deixou no presente.
 
Essa dimensão corporal da memória encontra sua imagem mais contundente na comparação “como um prego atravessa a mão e a cruz,/e passa ao outro lado”. A referência ao prego convoca imediatamente o imaginário da crucificação e acrescenta à experiência da lembrança uma dimensão de dor e sacrifício. O detalhe “e passa ao outro lado” intensifica a imagem: aquilo que atravessa não apenas toca o sujeito, mas o transpassa. A memória deixa de ser uma operação mental para tornar-se experiência física, quase uma inscrição no corpo.
 
O verbo “atravessar” assume, por isso, uma função estrutural. “Tudo me atravessa./Atravessa e compõe./Compõe e cinde./Cinde e provoca dor.” A repetição cria uma progressão rítmica em que cada verbo desencadeia o seguinte. O paralelismo transforma a própria sintaxe em representação do processo de constituição do sujeito. Aquilo que o atravessa primeiro o compõe, mas aquilo que compõe também pode cindi-lo. A experiência, portanto, não é exclusivamente formadora ou destrutiva: é simultaneamente construção e ruptura.
 
Essa dinâmica impede que o poema apresente uma visão idealizada da memória. Lembrar pode produzir prazer, mas também pode provocar dor. É justamente nesse movimento que surge a imagem do “rio eterno das mudanças”, cuja dimensão temporal aproxima o poema de uma concepção heraclitiana da existência. Tudo flui, tudo se transforma, e o sujeito não permanece idêntico a si mesmo porque é continuamente modificado pelas relações e acontecimentos que atravessam sua trajetória. Dor e prazer aparecem, assim, não como estados opostos e excludentes, mas como manifestações alternadas do próprio movimento de existir.
 
A consciência dessa multiplicidade conduz a uma das afirmações centrais do poema:
 
“Sou o todo composto pelas partes,
Tão diversas e quebradiças,
Tão bem articuladas no uno do meu ser!”
 
A imagem desloca a ideia de unidade. O eu não é uno porque seja indivisível, mas porque consegue reunir em si aquilo que é diverso e fragmentário. As partes são “quebradiças”, portanto vulneráveis, mas encontram-se “articuladas” numa totalidade. A identidade surge como composição, não como essência. O sujeito é o resultado provisório de tudo aquilo que recebeu, perdeu, incorporou e transformou.
 
É nesse ponto que o título ganha uma segunda camada de significado. “Em mim, todos os outros” não afirma apenas a presença da memória alheia no interior do indivíduo. Afirma que a própria constituição do eu depende da alteridade. Essa percepção alcança sua formulação mais sintética no verso “Sou o outro dos outros.” O aparente paradoxo dissolve qualquer possibilidade de um sujeito autossuficiente. Somos também aquilo que fomos para os outros e aquilo que os outros fizeram de nós.
 
O travessão que antecede “E tudo ainda tine dentro de mim!” introduz uma espécie de transbordamento. O verbo “tine”, associado a um som metálico que permanece vibrando depois do impacto, é particularmente significativo. As experiências não apenas permanecem na memória; elas continuam ressoando. O passado pode ter terminado enquanto acontecimento, mas não necessariamente terminou enquanto presença interior.
 
Essa ideia prepara o movimento reflexivo dos versos finais:

“A dor de existir é a dor do corte do cordão umbilical.”
 
A metáfora do cordão umbilical amplia a questão da separação. Nascer implica romper uma ligação primordial, mas a ruptura não elimina o vínculo que a precedeu. A existência individual começa justamente quando uma unidade originária é desfeita. O corte é necessário para que o eu exista, mas também inaugura a experiência da falta. Viver significa, em alguma medida, aprender a existir depois da separação.
 
Por isso, o último verso não funciona como simples conclusão, mas como uma espécie de síntese afetiva e ontológica:

“Não se diz adeus àquilo que ainda reverbera em si.”
 
O verbo “reverberar” retoma discretamente o “tine” anterior e transforma a memória em fenômeno acústico. O outro continua presente não porque possa ser fisicamente recuperado, mas porque sua passagem modificou a matéria interior daquele que permanece. O adeus torna-se impossível diante daquilo que continua produzindo ressonância.
 
É nessa perspectiva que o poema encontra sua maior força. “Em mim, todos os outros” não trata a memória como simples arquivo do passado, mas como matéria viva de constituição do sujeito. Cada presença deixa uma marca; cada perda reorganiza o que permanece. O eu não é uma ilha protegida contra o tempo, mas um espaço atravessado por presenças que continuam compondo, cindindo e reverberando. Talvez seja justamente essa a sua afirmação mais profunda: aquilo que amamos, aquilo que perdemos e aquilo que vivemos não desaparece inteiramente quando termina. Continua existindo na forma mais íntima da permanência, aquela que já não está fora de nós, porque passou a fazer parte de quem somos.

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