A epifania do que desaparece em “1. 193”, soneto de Bruno Tolentino, por Francisco Gomes
Há momentos em que a revelação não acrescenta luz ao que vemos, mas torna mais nítida a consciência de que tudo está desaparecendo. É dessa espécie de iluminação às avessas que parece nascer 1. 193, de Bruno Tolentino, soneto pertencente à seção “As epifanias”, de A imitação do amanhecer. Desde a abertura — “Que mais dizer?” —, o poema instala uma crise do dizer: a palavra é convocada justamente quando parece já não haver o que acrescentar à experiência.
A pergunta, porém, não conduz ao silêncio. Ao contrário, abre caminho para uma das imagens mais fortes do soneto:
“a vida toda é uma fumaça
a que se abraça a forma efêmera do ser”.
A fumaça possui uma forma, mas não possui permanência. Pode ser vista, mas não retida; delineia-se no espaço enquanto se desfaz. Ao associá-la à “forma efêmera do ser”, Tolentino transforma uma imagem da transitoriedade numa verdadeira proposição ontológica: existir é assumir uma configuração provisória.
O verbo “abraçar” torna a imagem ainda mais complexa. Abraçar pressupõe proximidade e desejo de retenção, mas aquilo que se tenta reter é justamente o que não pode ser segurado. Há, nesse gesto, uma espécie de contradição humana: queremos conservar a vida no instante em que descobrimos que sua natureza é passar.
A consciência do efêmero não conduz, entretanto, ao abandono da forma. É justamente aí que o rigor formal de Tolentino ganha importância. O soneto é construído em versos dodecassilábicos, submetidos a uma arquitetura de rimas que produz uma tensão entre fluidez e contenção. A experiência é instável; o poema, não. Enquanto a vida se dispersa como fumaça, a linguagem ergue uma estrutura para acolher aquilo que passa.
A forma, portanto, não vence o efêmero. Apenas lhe oferece uma possibilidade de permanência estética.
Essa tensão se amplia quando o poema abandona momentaneamente a fumaça e se volta para a pintura:
“a cor do amor nas aquarelas do que passa”.
A escolha da aquarela é precisa. A técnica pressupõe transparência, diluição, mistura, contornos menos rígidos. A cor existe, mas parece sempre próxima de se espalhar. Associada ao amor, ela ganha ainda uma dimensão afetiva: o sentimento não é fixado como matéria permanente, mas inscrito justamente nas “aquarelas do que passa”.
A imagem retorna em “a tela breve do que é”. O adjetivo “breve” não funciona apenas como qualificação temporal. Ele parece atingir a própria condição do ser representado. A existência torna-se tela, mas uma tela cuja duração é limitada. O mundo não aparece como realidade imóvel, e sim como superfície estética submetida à passagem.
É nesse ponto que o título da obra estabelece uma ressonância importante. O amanhecer costuma significar começo, nascimento, descoberta. Em Tolentino, contudo, a luz já traz consigo a noite:
“é tudo um belo amanhecer
e de repente é noite”.
O “de repente” comprime brutalmente o tempo. Não há uma longa passagem entre claridade e escuridão; há uma transformação súbita, quase um colapso da experiência. O verso condensa, assim, uma espécie de epifania do colapso: o instante de beleza coincide com sua própria dissipação. A revelação não ilumina uma permanência escondida. Revela a precariedade daquilo que acabou de aparecer.
Essa lógica ajuda a compreender também a evocação de “Alexandria e seus veleiros”. A cidade introduz no poema uma dimensão histórica e civilizatória. Alexandria é memória de uma grandeza que sobrevive sobretudo como vestígio; os veleiros, por sua vez, acrescentam à imagem o movimento, a partida, o afastamento. Cidade e embarcações parecem condensar duas modalidades do desaparecimento: aquilo que o tempo transforma em ruína e aquilo que simplesmente segue adiante.
A referência não funciona, portanto, apenas como ornamento erudito. Alexandria é também uma imagem da memória. O que chega ao presente já não é a cidade, mas sua representação, sua permanência transformada em lembrança. Como na aquarela, resta a imagem daquilo que já passou.
É significativo que, nesse momento, o poema afirme:
“o ser
é o que puseres na aquarela”.
Há aqui uma paradoxal liberdade criadora. Se o ser pode ser aquilo que o poeta coloca na tela, a linguagem deixa de ser mera reprodução e passa a participar da própria constituição da realidade poética. O mundo não é simplesmente contemplado: é reorganizado pelo olhar.
Mas essa liberdade é imediatamente tensionada por outra afirmação:
“sem que faça
diferença nenhuma o que tentas dizer”.
O poeta pode criar a imagem, mas não domina inteiramente aquilo que nomeia. A palavra constrói uma presença e, simultaneamente, revela sua insuficiência. O ser pode ser reinventado na aquarela, mas continua submetido àquilo que passa.
É nessa contradição que a dimensão metapoética do soneto se intensifica. O poema fala da vida, mas fala também do próprio ato de transformá-la em linguagem. Dizer é tentar fixar; escrever é dar forma; poetizar é converter a experiência em imagem. Contudo, nenhuma dessas operações interrompe a passagem do tempo.
A poesia não conserva a coisa. Conserva sua aparição.
Por isso, o imperativo que encerra o soneto — “ah, mas não trates de entender!” — é mais complexo do que uma simples recusa da razão. Depois de conduzir o leitor pela fumaça, pelas aquarelas, pelo amanhecer, pela noite e por Alexandria, Tolentino retira a possibilidade de uma conclusão inteiramente racional. O poema não quer ser reduzido a uma chave interpretativa que explique todas as suas imagens.
Não se trata de abolir o entendimento, mas de reconhecer seu limite.
A epifania, afinal, não precisa explicar aquilo que revela. Basta tornar visível, ainda que por um instante, algo que antes permanecia oculto. Em 1. 193, esse algo é justamente a precariedade: a beleza já contém a perda, a forma já contém a dissolução, o amanhecer já contém a noite.
Por isso a pergunta “Que mais dizer?” permaneça ecoando depois do último verso. O poema diz muito, mas sabe que a linguagem não pode deter aquilo que nomeia. Resta-lhe a forma, essa tentativa rigorosa de dar duração ao transitório.
Tolentino articula, assim, tradição formal e consciência trágica sem transformar o poema numa sentença sobre a existência. A vida é fumaça, o amor é cor, o ser é tela breve, Alexandria é memória, e os veleiros continuam partindo. Tudo aparece sob a condição de desaparecer.
A epifania não está em descobrir uma resposta. Está em perceber que o amanhecer já traz a noite.